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domingo, 2 de maio de 2010

Uma fase tipo assim...Deprê! ( Parte II)

                           HOSPITAL

Se um dia eu resolver escrever um livro, vou fazer plantão num hospital.

É incrível a metamorfose que as pessoas sofrem num quarto de hospital. A solidariedade, a necessidade de falar, de contar sua vida a estranhos...O que se fala e o que se ouve num quarto de hospital, nem 10 anos de terapia conseguem suprir. Lá a gente constrói grandes e sólidas amizades, mesmo que elas durem pouco mais de 24 horas. Menos, até.
Conheci uma criatura bem interiorana, até mais do que eu. Com alguns dialetos que eu desconhecia, engraçadíssimos: “Carca açúcar no meu café, eu já to cagada mesmo, o que é que tem sentar na bosta?” Graças a Deus, essa foi antes da cirurgia, pois pude me contorcer de tanto rir por metade da madrugada até ao meio dia, e ela me ajudou muito a espantar os fantasmas , e suas histórias me distraíram tanto....me fez pensar em como exigimos tanto do outro e de nós mesmos para podermos ser feliz, enquanto para muitos, a felicidade é, de fato, uma questão de escolha.
Me contou sem mágoas ou indignação que vivia um casamento de 30 anos com alguém que não amava, e nem era amada por ele, mas se tratava de um homem muito bom: nunca bateu nela.Nunca deixou nada faltar e embora não se dêem muito bem, eles moram junto, na mesma casa!
Me falou das agruras que é ter um filho indo embora, e não poder cuidar mais dele como sempre fez, saber que ele passa dias com sanduiches e frutinhas, por não ter tempo pra se alimentar direito....Mas afinal, ele é muito inteligente, está estudando pra ser juiz e isso é lindo também.
Contou que na cidade onde mora, se você peida numa esquina, na outra, já virou disenteria e que até o padre se bota a palpitar na vida da gente e nos obriga, o-bri-gaaa a ajudar na quermesse, que absurdo. Esse é o mal das cidades pequenas. Disso eu bem sei...
Essa me ensinou que a vida não precisa de complicações, que viver é simples, e que ser feliz é uma questão de escolha.
Que devemos escolher ser feliz dentro da vida que temos e pronto, sem maiores aspirações. Quando voltei do C.C, ela já havia recebido alta, e me emocionou muito receber uma ligação dela no final da tarde, para saber se eu estava bem. Ai, ai, eu escrevo e choro. Estou valendo menos que uma Simba quente.
Na madrugada sem fim, quando consigo finalmente uma posição pitagoricamente calculada que me permite dormir, eis que surge uma grandalhona, com uma daquelas coleiras no pescoço pra me fazer companhia. Vai saber o que se passou...Um acidente, talvez. Nem quis saber.Ema, ema, ema, vamos correr atrás e quem sabe consigo alcançar aquele sono novamente.
Que nada.Já era.Resolvi , por caridade a ela e pra passar o tempo, engatar um papinho despretensioso com a imobilizada, que não pregava o olho nem por um instante sequer.
Era uma professora de Lingua Portuguesa. Com essa não teria problemas com as conjugações ou com palavras inexistentes, pensei.
Não nos vimos, pois quando ela entrou, eu estava assonada, quarto a meia luz.Ela, por sua vez, imobilizada como a Luciana assim que sofreu o acidente em Petra, só era capaz de enxergar a luminária que ficava em cima da sua cama. Mas gente, que conversinha boa foi aquela. Prometi a mim mesma convidá-la para um choppinho , pois se já foi bom ,estando as duas numa cama, imagine um happy hour num desses barzinhos da vida.
Essa me contou uma história de amor, que falava do poder do destino e da esperança em dias melhores.
Foi apaixonada por um sujeito e por umas dessas razões bobas da vida, acabaram se perdendo. Casou. Gostava, mas não amou como amou aquele sujeito. Enviuvou cedo. Reencontrou o velho e único amor e sim, viveram felizes para sempre, porque o sempre é agora.E são sempre felizes.
É claro que sintetizei bem,já que ela falava muito e detesto escrever textos imensos. Um detalhe: Ela operou alguma coisa que a anestesia não me permite lembrar agora, mas fica na parte posterior da nuca, e o corte foi feito na goela. Suas cordas vocais foram afastadas para que se pudesse manipular o tal problema da nuca . E mesmo assim, ela falava como nunca. Amei!
E amei mais ainda quando ela telefonou a seu pai e se dirigiu a ele assim : Oi papai, já estou bem, viu?Diga pra mamãe ficar sossegada.Claro que estou podendo falar, papai!E o senhor acha que eu agüento ficar calada?.
Acho fofo quem chama os pais dessa forma.
E ela, realmente não agüenta ficar calada.Mas sabe o que fala , e preencheu minha pequena vida naquele quarto a ponto de eu lamentar quando recebi alta.
Ao nos despedirmos, finalmente nos vimos direito e ela ainda disse: Você é linda! Veja você, como ninguém é perfeito mesmo....que criatura no mundo me acharia linda, toda inchada, acabadona, sem chapinha nem nada....Mas mesmo assim a perdoei e a levarei comigo, pode ter certeza disso.
Acho que são essas pessoas que dizem ser anjos que Deus envia pra nos dar algum alento nos momentos difíceis.Espero , sinceramente, também ter conseguido de alguma forma, trazer-lhes algum tipo de alegria...

(PRECISO DE UM SUPORTE PARA NOTE BOOK..)

2 comentários:

  1. cristianelupino@terra.com.br6 de maio de 2010 17:05

    Lu,
    Graças a DEUS tenho bons amigos , que são bonitos, que sempre estão à escuta, que fazem declarações, que me dão valor, que me fazem feliz, tenho amigos que ficam bravos comigo, tenho os que riem por qualquer coisa, mas também tenho aqueles amigos sérios, tenho aqueles que nunca me negam nada, tenho amigos a quem devo muita coisa, tenho amigos que amo muito, também tenho amigos que quero ter pra vida toda.Mas tenho também a certeza de que o melhor de todos os amigos na verdade é aquele que surge do nada e por acaso.
    Então querida Lú agora tenho você também como amiga.Nos conhecemos na dor e espero que nossa amizade se solidifique com o amor.
    Não sei quando poderemos tomar aquele shop mas assim que puder nós duas teremos muito o que conversar.
    Creia, você foi meu anjo, aquele que vem sempre colocar a mão para acalmar nosso coração quando mais precisamos.
    Nada hoje foi melhor que descobrir seu blog e suas lindas palavras sobre nosso encontro.Você escreve muito bem.
    Fiquei encantada com sua filha, e com seu avô.
    Pronto falei demais.
    Volto sempre para deixar meus comentários e ler seus belos textos.
    Beijos
    Cristiane.

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  2. ôôô, meu anjo...obrigada pelas palavras, viu?
    Fiquei muito emocionada em constatar que nossa amizade não durou as 24 horas (ou menos).
    Te levo comigo!
    bjinhos mil pra ti!

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Sabia que somente pessoas especiais postam comentários aqui?